Não há sinais de que o porvir nos reserve uma Guerra dos Mundos tal qual fantasiada por H.G. Wells e filmada por Spielberg. A guerra porvir – e nela já estamos parcialmente metidos – é muito mais uma guerra entre cosmovisões nascidas neste globo terrestre, encarnadas em dois grandes exércitos que aqui sondaremos com ajuda salutar: subam ao barco, Bruno Latour, Isabelle Stengers, Eduardo Viveiros de Castro, Débora Danowski, Eliane Brum!…
Não: não serão alienígenas e terráqueos os exércitos digladiando-se, entrematando-se. Agora é a vez dos devotos de Gaia entrarem em clash bélico tremendo com os partidários de Prometeu. O que queremos diz com estas estranhas evocações de deuses e titãs da mitologia grecolatina? Bem, esta evocação de mitos e das narrativas a eles conexas justifica-se por não ser uma arbitrariedade contingente que o autor deste escrito inventaria, faminto pela notoriedade da originalidade.
Pelo contrário: não há nada de original, propriamente, sendo afirmado aqui. Há apenas o reconhecimento, que se torna inegável quando estudamos as fontes das ciências humanas e da produção estético-cultural contemporânea, de que se fala cada vez mais numa “intrusão de Gaia”, magnificamente conceituada por Isabelle Stengers; e também há um boom que atravessa os últimos séculos apontando para reformulações do mito de Prometeu através de criações culturais de alto impacto como o Frankenstein ou Prometeu Moderno de Mary Shelley (com magnifícas adaptações para o cinema dentre as qual destaca-se a de Kenneth Branagh).
A isso some-se, é claro, o fato de que Gaia é o nome de uma das mais famosas teorias ecológicas já propostas (Lovelock, Margulis), e que Prometeu, de seu lado, marca a história da filosofia no séc. XX de muitos modos, mas sobretudo pelo modo como é mobilizado por Hans Jonas em O Princípio Responsabilidade.
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Tentemos compreender o embate Gaia vs Prometeu não mais a partir destes vagos mitos poéticos que nos levam ao éter da fantasia humana, mas sim a partir de singularidades, de pessoas específicas, que estão em cada um destes dois “times” em conflito. Vou propor ao debate que consideremos Caetano Veloso como um cara da galera de Gaia, e um cara como Elon Musk sendo do exército prometeico.
“Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante De uma estrela que virá numa velocidade estonteante E pousará no coração do hemisfério sul Na América, num claro instante Depois de exterminada a última nação indígena E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias Virá Impávido que nem Muhammad Ali Virá que eu vi Apaixonadamente como Peri Virá que eu vi Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee Virá que eu vi O axé do afoxé Filhos de Gandhi Virá Um índio preservado em pleno corpo físico Em todo sólido, todo gás e todo líquido Em átomos, palavras, alma, cor Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico Do objeto-sim resplandecente descerá o índio E as coisas que eu sei que ele dirá, fará Não sei dizer assim de um modo explícito Virá Impávido que nem Muhammad Ali Virá que eu vi Apaixonadamente como Peri Virá que eu vi Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee Virá que eu vi O axé do afoxé Filhos de Gandhi Virá E aquilo que nesse momento se revelará aos povos Surpreenderá a todos não por ser exótico Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto Quando terá sido o óbvio.”
Publicado em: 21/08/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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